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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Privacidade - parte 1

Leio hoje um artigo do sempre interessante articulista João Pereira Coutinho (disponível no http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u696891.shtml), sobre Tiger Woods e a privacidade.
Esse é um tema que tem me assaltado há alguns dias e por dois motivos:
- o primeiro, a própria idéia de publicar esse blog, um espaço onde eu possa trocar idéias com amigos e articular meus pensamentos e que, de algum modo, coloca em cheque para mim o limite de até onde um psicologo pode se expor ou deve se obrigar ao "low profile";
- o segundo, pela mudança do conceito de privacidade num mundo em que a todo momento somos filmados, fotografados, "blogados", "twitados", "formspringados" e etc. (voluntariamente ou não).

Por vicio de formação sempre que me vejo nesse tipo de dilema defendo o caminho do meio (meden agan), porem esse nem sempre é fácil de se encontrar.

Do ponto de vista técnico, há muito está conceituado o principio de transferência e contratransferência como parte fundamental do processo de psicoterapia.
Isso equivale a dizer que, de certa forma, a exposição do terapeuta ao paciente "rouba" desse último um espaço projetivo, criativo, de apropriação e transformação da figura do analista.
É fundamental que o analista permita que seu paciente o crie e, portanto, há um limite para a exposição. Se essa exposição é tal que o terapeuta não fornece espaço para o paciente, então o mesmo pode estar se inviabilizando.
Porem, vale a pena lutar contra as investidas do paciente e/ou se privar das capacidades fornecidas pela tecnologia atual? Penso que não.
Ou, pelo menos, penso que depende da abordagem terapêutica.
Aqueles psicólogos que priorizam o posicionamento do analista no processo terapêutico devem fazer o sacrifício e se abster da exposição.
Mas aqueles que priorizam o "gesto" não podem e não devem ir pelo mesmo caminho. Pela simples razão de que, antes de tudo, o paciente vai procurar nesses a referência de sinceridade e possibilidade de existir sem o falso self.
Na minha clínica meu paciente, ou meu cliente, deseja antes de tudo interagir com outro ser humano. Um que o acolha integralmente, mas tambem alguem que tenha idéias, desejos, fantasias, vida!
Dentro dessa interpretação, diria que eu não posso me abrir para meu paciente, mas tambem não posso me fechar. Me fechar totalmente seria a negação de minha identidade, prejudicando o atendimento tanto quanto no excesso de abertura.
Penso que os pacientes sempre nos prescrutaram. Só que, agora, alem dos títulos, do consultório, da aparência física e de tantos outros atributos com os quais os pacientes especulam os analistas, juntaram-se os perfis em redes sociais, blogs e etc.
Nosso desafio, ao invés de fugir dessas ferramentas, é permanecer íntegros, mesmo expostos a elas.

Bem, e a parte da privacidade como conquista social, como prega Coutinho?
Sobre isso falo depois. Ou não! (se eu desejar manter meus pensamentos privados...)

Um comentário:

Marilia Castello Branco disse...

Oi, Walter;
Legal que vc está fazendi um blog. Eu mesma tive um, tempos atrás, que eu adorava fazer. Mas foi justamente por conta dessa questão da privacidade que precisei parar justamente quando comecei a clinicar, pois comecei a ter alguns problemas que poderiam ter ficado graves se eu não tivesse feito isso. Mas era um blog mais íntimo, pessoal, como se usava bastante naquela época.
O Orkut também comecei e não deu certo, na época era muito aberto e surgiu uma coisa persecutória com alguns pacientes.

Agora eu tenho o Caneta Revólver, com um tema mais específico, voltado para a divulgação do meu livro e está sendo bem tranquilo, mas nem tenho escrito muito por lá. Tenho seguido a norma de só publicar appenas aquilo que é - ou pode ser público, mesmo falando de coisas que são pessoais.

Acho que o terapeuta também precisa ter cuidado para não se colocar num patamar de monstro sagrado inatingível, que não existe como ser humano fora do consultório. Se quiser, apareça no meu blog e diga o que acha!