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terça-feira, 1 de junho de 2010

Filtros Mentais

Estive esses dias às voltas com sentimentos, sensações e informações conflitantes a respeito do "acidente" envolvendo as forças armadas Israelenses e o comboio de ajuda humanitária para Gaza.

Tudo corria razoavelmente bem, entretanto, até uma amiga minha postar no twitter um link para a revista Veja (argh!) sob o pretexto de fornecer "uma outra visão dos fatos". Aí eu precisei escrever esse post.

Minha amiga é judia, e a "outra visão dos fatos" traz um comentário de um articulista que é no mínimo tendencioso. Chega a ponto de justificar a ofensiva a partir de considerar o comboio uma afronta à soberania Israelense, ignorando o fato anterior de Israel ter se apossado ilegalmente daquela região e ter reduzido-a a terra arrasada (criando assim, sob a justificativa de se proteger de terroristas, um celeiro de futuros terroristas...).

Mas isso, de fato, pouco importa na minha reflexão. A pergunta que me assola é a seguinte: é possível fazer uma observação isenta a respeito de fatos complexos como o conflito arabe-israelense?
Acredito que não...
Me lembro do princípio de Eisenberg e, apesar de estarmos longe da física quantica, creio que aqui tambem o observador influencia o resultado do experimento.
Minha justifica para essa impressão deriva de dois fatos:

1- O conflito em questão é tão antigo, tão complexo, envolvendo estigmas, lutas, segregação, genocídios... que se torna quase impossível uma análise de "fatos". Afinal, os fatos atuais são referenciados a sentimentos relativos a fatos anteriores, e anteriores, e anteriores... remontando a um período de milhares de anos. Uma análise isenta dos fatos demandaria, portanto, uma coleção de conhecimentos impraticável.

2- O ser humano tem uma tendência, ou uma necessidade, de elaboração através da explicação e decupação lógica dos fatos. Mas fatos complexos, por não permitirem essa decupação, exigem de quem tenha a ânsia da elaboração um referencial afetivo que possa preencher as lacunas lógicas. É aí que, sem percebermos, elaboramos estruturas cognitivas que visam não a explicação e análise do fato, mas a sustentação do afeto utilizado para dar conta do mesmo.
No caso em questão, utilizamos fundamente dois tipos de afeto: a empatia com a dor do povo palestino, que sofre com a perda de seu território, sua soberania, sua dignidade, sua vida... e a empatia com a dor do povo judeu, que sofreu muito, e durante muito tempo, com a perda de seu território, sua soberania, sua dignidade, sua vida.

Aqui, um fato complexo, impossível de ser reduzido, acaba ganhando contornos afetivos, moderados pelo medo e a dor. Medo e dor que demandam defesa e sustentação, que demandam a "versão dos fatos" que nos seja a mais conveniente.

Um comentário:

Tere Yadid Sztokbant disse...

Fernando Pessoa - Notas Soltas

Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado.

Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado.
Cada um me disse a verdade.
Cada um me contou as suas razões.
Ambos tinham razão.
Ambos tinham toda a razão.

Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente.
Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado,
cada um as via com um critério idêntico ao do outro.
Mas cada um via uma coisa diferente,
e cada um portanto, tinha razão.

Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.